domingo, 29 de janeiro de 2012

Do ato




Dizem que a gente existe e é vida
E que dela não há saída
E nem porta certa de entrar

Não há?

Se pisas aqui, como veio?
Caiu de onde?
Veio de longe?

Surgiu do broto de alguma flor
Da toca de algum bicho

Saiu fugido do paraíso

Nasceu do chão
fecundado pela água da chuva
veio de onde o vento fez a curva

saiu da explosão
de finas bolhas de sabão

foi moldado em barro amarelo
ou montado com prego,
madeira e martelo
com a força de um par de mãos

derivou-se da costela de outrem
ou não precisou de ninguém

manou do nada
saiu do vão

Rebentou da pergunta que se cala
daquela que não tem explicação

Nasceu do que era mais poético
E do mais bonito que, no inverso
Representou a criação.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vênus notável




Todo dia ela chega mais cedo
Entra apressada pelos fundos
Sobe a escada escura
Escondida de todo mundo

Pousada sobre a cadeira
Tinge o rosto de cor e segredo
Combina as roupas separadas
E incorpora todo o enredo

Enquanto a porta principal se abre
Os olhos percorrem o salão ainda vazio
Que depois dará abrigo
A todo aquele frêmito e gritos

Silencia a dor que tanto a incomoda
Ensaia um sorriso doce e banal
Confere as cortinas fechadas
E prepara-se para a entrada triunfal

Do alto de sua angústia
Entoou a canção da maneira mais viva
E tentou segurar na voz
Todo seu status de diva


*Sugestão de acompanhamento musical: escolha a SUA diva...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

[Do que se cala]




Anjos e demônios:
palavras sem som
sutis heterônimos.


Os anjos não dão os ombros, não; 
quando querem mostrar indiferença 
os anjos dão as asas.  
[Mário Quintana]



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ação de reconhecimento





Terra de todos os santos
De tantas histórias
De um passado tão grande
Poço sem fundo de memórias

Terra de todas as rimas
De toda palavra
De tanta poesia

Terra do encontro
De um povo estrangeiro,
Fugitivo,
Acolhido com força
em teus braços nativos

Terra perene de fé
Cantada em firme eloqüência
No ritmo intenso do candomblé

Terra primeira
Nascida do grito

Chão de certeza
De alegria e beleza

Começo de tudo,
Do ontem ao presente
A benção, Bahia, minha mãe
Mãe da gente.

[Saudoso poema nativo...]

*Crédito da imagem: Cruz que marca o local onde Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa no Brasil, em Santa Cruz de Cabrália, BA. (Arquivo particular)

domingo, 26 de junho de 2011

E o Rio, o que é?


O Rio é o turista desajeitado no samba
É o quintal democrático da casa do bamba.

O Rio é a paisagem cantada por Tom Jobim
É o futebol no Maraca e o encontro de amigos no botequim

É a cidade que nasceu em verso e que se fez em rima
É quadro de pintura perfeita quando olhada lá de cima

Cidade que carrega beleza até nos subúrbios:
Esses secretos refúgios
do bem e do mal

O Rio é aquela garota de Ipanema que passa
É o malandro gingando faceiro pela Lapa

E eu te beijo com os olhos,
E te sinto com os pés,

E de braços abertos,
como o Cristo que te protege,
faço meu esse momento de prece

Tens qualquer coisa que encanta
Que faz o corpo viajar:

Talvez seja a melodia
soprada de mansinho
pelas águas do mar

Tua beleza sinuosa
espalhando beleza pelas bordas
envaidece o título oferecido pelo teu solo

E cada filho que nasce, saído de tua brisa
escuta do céu a voz que invoca:
sede bem vindo ao azul,
carioca!


*Créditos da imagem: arquivo particular

domingo, 12 de junho de 2011

Ama-me




Ama-me sem pressa e sem medo
[sem vício e sem dor]

ama-me de novo
e satisfaça o corpo

[o meu e o seu]

ama-me com a mesma beleza
e com o mesmo amor de Orfeu

ama-me como descrevem os sonetos
[e guarde a melodia
do momento em que estremeço]

ama-me em silêncio
[velando a leveza de cada movimento]

ama-me em acordes
[de sons dissonantes]

ama-me agora
[com o mesmo desespero de antes]

ama-me em demasia
[com os olhos fechados em prece]

ama-me os instintos,
os sentidos,
e a pele que me veste.   

[Ama-me]


domingo, 10 de abril de 2011

Eu juro



Eu juro ser mais quente que o sol
do verão mais intenso

e ser mais agradável que a chuva apressada
que cai mansa e embaça a vidraça

Eu juro ser inteira
mesmo em metade

Eu juro ser beijo farto,
abraço apertado,
colo acolhedor

eu juro ser o pincel
que tinge a pétala da flor

Eu juro ser a porta aberta
nos dias em que é preciso fugir do frio
Eu juro ser a segurança necessária
ao longo do rio

Eu juro ir além do pensamento
nos dias de tormenta
Eu juro ser o perdão
para cada pecado que a gente inventa

Eu juro ser o destino que marca o fim da estrada
eu prometo tudo que se deriva do nada

Eu prometo o vôo panorâmico
apreciado nas asas do beija-flor
eu prometo o fim das horas
que contam o tempo de duração do amor

Eu prometo o sonho sem fim
a noite de estrelas
o céu com lua cheia

Eu prometo ser veículo de alma inspirada
eu prometo declarações de cara lavada

eu juro que só haverão sussurros sob a penumbra
eu prometo céu de brigadeiro em dias de chuva

Eu juro ser do olhar o brilho
o motivo do riso
o quente dos lábios

Eu prometo a vibração da carne
as mãos em prece
e o aroma que perfuma a pele

Eu juro ser a luz no fim do túnel
que for preciso percorrer
eu juro ser a distância eterna entre o aqui e o morrer

Eu juro ser árvore
eu prometo dar frutos

Eu prometo ser as páginas do livro
escrito em sigilo absoluto

Eu prometo ser a aurora do dia
desenhada no horizonte
Eu prometo ser o cair da tarde
enfeitando a paisagem distante

e mais do que se pode
pra ser vasto com o que acolhe
eu prometo, sem dor, ser corpo
para receber em renúncia
as asas que me nascem suaves no dorso. 



*Créditos da imgem aqui

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vontade divina





Vinde a mim apenas o que é leve
o que tiver perfume
o que não seja breve

Vinde a mim o sussurro poético
o sorriso sem fim
o doce mistério

Vinde a mim a flor entreaberta
a poeira da estrela
a gentil descoberta

Vinde a mim o claro do dia
o colo da noite
o sentido da vida.